1. Killing Time chronicle
  2. O COLECIONADOR DE JULIETAS
  3. ABELLE VAI ÀS COMPRAS
  4. O ELIXIR VERMELHO
  5. O CONTO DA GAIOLA
  6. A PRIMEIRA DEUSA
rebbecaraven@gmail.com

Contos de Suspense

por Rebbeca Raven

Contos de Suspense
por Rebbeca Raven
Killing Time chronicle

Time was a very obsessive man, full of worries, submersed in his to do list. There was lots of troubles to solve and still more to create. In his pocket two cell phones that ring all the time. For a normal person his email account seams like a huge catalog of products from wallmart. To respond to all of then he probably would have to spend one and a half  years of his life. But nor anyone else could stop his sagacity. It was his fuel, his power, his inspiration.

            His partner, Mr Clock, was always on his side, giving him support, attention and, of course, pressure. He always says, in a authoritative way ‘It’s time!’ ‘It’s time!’. Time always feels lost when Mr Clock wasn’t there. He created almost a superstition about his presence. If Mr Clock was there, he would be on time, if not, he could get lost, loose his mind, get the wrong places. Everything could sound like a tragedy.

            But Time is changing and also the world. People stopped giving him hard jobs, nobody wants to waste their precious moments with him. And as the years passed a community that wanted to live a slow pace of life starts to organize moviments calling for the killing of Time.

            Mr Time was very obsessed about it, his life was always about work and running for the other people and now they want to kill Time with bullshit, for doing nothing. How? He couldn’t belive that was real. How could the world live without Time? Also Mr Clock started to become preocupated about it. He will probably loose his job.

            Then one beautiful morning, when Time was running in the park, he noticed that everybody didn’t care about him anymore. People were enjoying their lives, without worry about Time. This makes Time very sad and looking in his reflection in the lake he jumped into the cold and lonely darkness to kill his own time, to kill his own life.

O COLECIONADOR DE JULIETAS

Quantos romances morrem na intenção de se concretizar? Quantas lágrimas de solidão são derramadas sobre cartas que suplicam pela volta do ser amado? Eu não sei dizer, mas ele sabia muito bem, quando toda noite caminhava pelas vias estreitas de Verona. Seu destino era a Casa de Julieta, um castelo medieval onde moravam suas várias Julietas sedentas por respostas às suas súplicas de amor.

Sobre aquela imensa parede de retalhos de papel ele deslizava sua mão coberta de cicatrizes. Parecia que seus dedos sabiam ler os conteúdos secretos dos bilhetes e a cada um que pegava previa um delicioso sinal de uma nova Julieta para sua coleção, prestes a ser encontrada.

A Julieta em questão não fora nada prudente, deixou uma pista fresca para seu Romeu. Ela o aguardava todas as noites de lua cheia no mesmo pátio do colégio onde se conheceram, seus cabelos refletiam o brilho que vinha do céu, como se algo mágico a envolvesse. Mas este Romeu, com seu punhal em mãos, não se satisfazia com apenas um coração, seu romance secreto era pelas palavras, gemidos e suspiros que o excitavam. Este Romeu não sabia o que era amor e tão pouco o queria. Sua paixão insaciável era pelo cheiro que suas vítimas exalavam quando lhes dava a punhalada final.

O que este Romeu não contava era encontrar a Julieta certa para ele. Certa noite, um papel se destacou dos demais, era dourado e reluzia a seus olhos. As palavras escritas nele traziam tons permissivos e incitadores da sua conduta assassina. Ele se sentiu desafiado, sentiu-se empenhado a encontrá-la e focou cada noite no mês frio de novembro vagando pelas ruelas de Verona. A única pista existente naquele papel era um banheiro de uma boate numa parte suja da cidade, em sua porta deveria encontrar no canto inferior um número de telefone.

Quando finalmente o telefone tocou, ela sabia que era ele, não quis ouvir sua voz, apenas disse o dia e horário que deveriam se encontrar, naquele mesmo banheiro. Enquanto amolava sua navalha, Romeu pensava em como seria aquela mulher, mas dentro de si algo dizia que sua missão estava prestes a ser cumprida, era ela a verdadeira Julieta da sua vida.

Quando chegou ao banheiro ela já estava lá, usando nada mais que uma provocante lingerie. Julieta olhou profundamente em seus olhos e ele entendeu o que ela estava procurando. Finalmente tinham se encontrado. Os dois então começaram a se beijar e a medida que se beijavam ele deslizava o punhal na pele lisa e pálida de Julieta. Ela se excitava, gemia de dor e prazer e ele se tornava cada vez mais impiedoso e satisfeito. O sangue que escorria de Julieta ia pouco a pouco banhando aquele balé bizarro de mãos e carícias. Quando Julieta finalmente conduziu a mão de Romeu para o meio do peito dela, ele, num golpe profundo, percebeu que o sentido da função daquele punhal acabara de ir junto com a vida de Julieta. Sem pensar, voltou o punhal para si e juntou-se a ela, como se os Caputelos e Montecchios pudessem os encontrar mais tarde e entender enfim o amor pelo qual se sacrificaram.

ABELLE VAI ÀS COMPRAS

Já se passara mais de três meses sem Abelle colocar em sua lista de compras do supermercado seu jantar preferido. Mas aquela noite pedia por algo especial, afinal era o aniversário da morte do marido. Acordou pensando exatamente na roupa que usaria naquele fim de tarde, uma saia um pouco acima do joelho, com uma fenda discreta na parte de trás e uma blusa de um tecido leve, mas com decote provocante, azul marinho.

Tomou seu banho, enquanto fazia o café amolava algumas facas e ia até a geladeira para ver se seu estoque de seringas e ampolas estava em total ordem. Não se tratava simplesmente de escolher o produto do seu jantar no supermercado, mas o que a deixava entusiasmada era todo o ritual que acompanhava este grande dia.

Abelle fez as unhas, passou a roupa, enquanto segurava o cigarro com o canto da boca e almoçou um pedaço de torta de frango preaquecida. Não se incomodaria com esta refeição, só pensava no jantar maravilhoso que prepararia mais tarde.

Salto preto, roupa deslisando pelo corpo, sacolas no porta-malas e lá foi ela para as compras. Observar os homens com suas cestas ou carrinho era o melhor momento para ela. Era no final de tarde que aguns dos solteirões ou casados iam ao supermercado fazer a boa ação do dia para suas esposas. Abelle então escolhia algum que estivesse só, que a olhasse com desejo. Entre os mantimentos dela, somente o essencial e alguns produtos um pouco pesados para uma mulher sozinha carregar. E, era assim que ela fazia suas vítimas, os convidava para que a ajudasse com as compras até o carro.

Enquanto o porta-malas se abria e a solícita figura masculina depositava as compras no carro, Abelle tirava de sua bolsa uma seringa previamente preparada com uma boa dose de tranquilizante. O homem então se debruçava sobre o porta-malas e ela o ajeitava entre as compras.

Como uma boa dona de casa que era, Abelle fazia com que tudo estivesse perfeito para o jantar quando sua vítima acordasse. Mesa posta, pratos quentes e frios sobre a mesa e ela lindamente enfeitada acompanhando seu convidado.

Ela servia vinho enquanto ele ia aos poucos acordando amarrado sobre uma cadeira, sentado na cabeceira da mesa. Quando percebeu que havia sido sequestrado, Abelle o olhou com ternura e lhe ofereceu vinho. Ele sentia que suas pernas não tinham movimento, seu corpo suava frio, estava nu. Ela forçava o vinho em sua boca, o obrigava a beber. Quando apresentou a entrada do menu cuidadosamente preparado, ele forçadamente entre uma onda de enjôo e outra a comeu junto com ela.

Finalmente, o prato principal se aproximava da mesa, carregado por Abelle com seu sorriso indecifrável e seus olhos de loucura. O prato estava fechado sobre uma bandeja, ela o colocou na frente dele e quando ela o abriu o homem entrou em pânico e começou a berrar, urrar. Sua genitália estava sobre uma cama de alface, decorada com pequenos tomates e um molho escuro. Antes que a fizesse comer, ele implorou que o matasse mas, afinal, ela ainda precisava servir a sobremesa. 

O ELIXIR VERMELHO

              Contam os mais fantasiosos moradores daquele povoado, que há séculos houve um ceifador de vidas que rondou a região. Era cedo da manhã e uma jovem se dirigia ao estábulo para ordenhar Tereza, uma vaca malhada que produzia categoricamente exatos vinte litros do mais fresco leite. A névoa ainda cobria o campo, mas a mocinha caminhava firme, botas nos pés, baldes nas mãos, cantando uma música espanhola. Ao entrar no estábulo não percebeu a presença de outro ser no local, além dela e de Tereza, a vaca. Foi golpeada na cabeça, puxada com fúria sobre os olhos de temor da pobre bovina. Cerca de meia hora depois pôde-se ouvir ao longe os gritos estridentes de uma mulher, mãe da mocinha, que botava as mãos na cabeça e olhava para a vaca como se perguntasse “Como você fez isso?”. Tereza, a vaca, só dignava-se a ruminar.

            Horas depois o descampado mais parecia um festival de curiosos que se juntavam de todas partes do condado, enquanto o guarda local balbuciava “É só tomate”. Nenhum vestígio de sangue existia na pobre moça. Nem sequer uma gota. O guarda cerrou o rosto, coçou o queixo, olhou para Tereza, a vaca, e dignou-se a balançar a cabeça.

            Era realmente um caso muito estranho, mais estranho mesmo foi o dia seguinte amanhecer com três outros gritos em diferentes pontos da cidade. O primeiro na loja de doces, a dona encontrara sua assistente coberta de polpa de tomate. Novamente nenhuma gota de sangue fora encontrada. O segundo, no açougue, uma jovem encontrada sem vida no salão de atendimento, coisa de minutos enquanto o açougueiro ia fatiar suas carnes. Mais uma vez, tomates picados e nenhuma gota de sangue. E, finalmente, a terceira vítima, encontrada próxima às roupas que estendia no varal, com a cara imersa em uma massa vermelha. Novamente, tomate. No último grito, Tereza, a vaca, levantou a cabeça da grama e dignou-se a piscar.

            Na semana seguinte a todos estes estranhos incidentes, uma carroça de som andava pelo vilarejo anunciando “A criança não se alimenta? O velho não tem mais vitalidade? A menina anda sem ânimo? Elixir de Vênus. O mais puro néctar das virgens. Gotas de vida e vigor num pequeno vidro. Se o problemas é amor, uma gota após o banho. Se o problema é potência, duas gotas na água pela manhã.” As senhoras arregalaram os olhos, as crianças saíram correndo para ver o tal frasco dos milagres, os homens torceram os bigodes e, Tereza, a vaca, dignou-se a balbuciar “Inocentes”. 

O CONTO DA GAIOLA

          Uma gaiola saiu para procurar um pássaro. As mãos que a segurava já não tremiam mais. Depois de anos naquele meticuloso exercício, era difícil mesmo que houvesse alguma imprecisão e reticencia com os bisturis e alicates.

            Ele, pisava forte e determinado, seguindo entre um beco gélido e iluminado apenas por uma fraca lâmpada que dava sinais de seu fim, piscando intensamente. A noite, se encontrava tão vazia quanto aquela gaiola velha e negra de sangue, já encrostado em suas nem tão finas varetas de metal. Em uma sala mal iluminada perto dali uma jovem mulher o esperava em suas poucas roupas. Ele tinha a encontrado num cabaré cobrando pouco mais de cinquenta cents por dez minutos de qualquer carícia. Seu rosto embora borrado trazia certa beleza, algo que foi encontrado por ele e que fez despertar seu pior. Talvez fosse por ela estar usando uma blusa parecida com a da sua mãe ou foi o batom que o fez lembrar daquelas noites de abusos e solidão amarrado ao pé da cama enquanto a mãe atendia mais um de seus clientes.

            A porta rangeu e com os passos vinha um barulho fino e agudo da gaiola que balançava de um lado para outro em suas mãos. Sobre uma mesa pousava o desenho de um pássaro com ossos e uma cabeça de boneca. Ela tremia de medo e se encolhia num canto do porão, escondendo seu rosto entre as mãos frias e sujas, como se pudesse se fazer invisível, mesmo que por um instante. Ele parou a sua frente segurando a gaiola. Ela olhou em seus olhos e deixou cair uma lágrima. Vamos, meu passarinho! Disse ele com um sorriso no canto de seu deformado rosto.

            Na manhã seguinte uma senhora acordou aos gritos, com um lindo pássaro em sua gaiola. Os ossos raspados e montados em lascas, como se colados, ainda retinham os vestígios de sangue. No lugar das penas, cabelos loiros como o sol daquele amanhecer. A velha permaneceu caída no chão, enquanto seu gato emitia alguns grunhidos sentado no parapeito da varanda.

A PRIMEIRA DEUSA

Há muito tempo quando a mãe natureza dirigia a vida das pessoas no planeta, a presença feminina de uma única figura era a que regia o universo. Mada era seu nome. Outros a chamavam de A Deusa. Seus cervos a chamavam de Dona. Pois a ela pertenciam tudo e todos que pela face da terra ousassem caminhar, sejam eles animais quadrupedes ou bípedes, flores ou frutos.

            Mada organizava a vida, equilibrava o curso dos rios. E assim a terra girava por milhões de anos. Isso mesmo! Mada era um ser mítico, real e imortal. E sua imortalidade não era segredo a ninguém, porém, ninguém ousaria fazer sua regular e estranha dieta para ter seus poderes.

            A cada lua nova, Mada se alimentava de um ou dois homens sadios, fortes e viris. Não existiam guerras naquela época, mas os únicos duelos eram travados em nome Dela. Os homens lutavam entre si e os ganhadores ao longo do ano formavam um seleto time de petiscos, feitos de músculos definidos. Mal a lua nova se punha no céu e podia-se ouvir do alto da montanha os gemidos e gritos que ecoavam por todo o povoado e faziam ressoar pelo planeta em forma de trovão.

            Porém, indo contra a profecia, Mada desafiou a regência do universo, se apaixonou por um homem que a traiu em seus mais profundos sentimentos. Ela o poupou, mas ele não. Por não come-lo, ele ganhou poderes maiores diante dos outros homens, formou seu exército e exigia um reino só para ele. Os outros homens perceberam que poderiam fazer o mesmo. E o mundo foi então tomado por guerras gigantescas e devastadoras. Mada foi pouco a pouco perdendo seu farto banquete. E, quando já não restava mais uma planta viva sobre a terra, muito menos um corpo masculino, Mada dava seu ultimo suspiro rumo ao real infinito: esta história que se perpetuará imortalmente geração após geração.